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VALORIZAR A PROFISSÃO
SÉRIE DE ARTIGOS DO PROFESSOR DR. FÁBIO FRANÇA

Fábio França
ffranca@uol.com.br

Doutor em Relações Públicas pela Universidade de São Paulo. Professor e coordenador do Núcleo de Produtos da Agência Experimental de Relações Públicas da UMESP. Autor dos livros: "Públicos: como identificá-los em uma nova visão estratégica" e "Manual da Qualidade em Projetos de Comunicação" em co-autoria com Sidinéia Freitas.


Texto II

Relações Públicas: uma atividade que não assume sua posição no mercado

O mercado procura cada vez mais interagir com os públicos de interesse de relacionamento. Os relacionamentos acontecem em todas as áreas de contato da organização com os diferentes grupos com que se envolve. Ela não está sozinha, depende, para a realização de negócios, da participação de determinados públicos, o que representa tarefa árdua e delicada. Para ser eficaz, essa relação precisa estar fundamentada em diretrizes garantidoras de uma gestão adequada e frutífera da interdependência organização/públicos.

Essa constatação, aliada à necessidade de enfrentar uma concorrência cada vez mais audaciosa, de conquistar e fidelizar clientes, respeitando seus direitos, está levando muitas organizações a criar setores especializados, como central de relacionamentos, serviço de atendimento ao cliente, contratação de um ombudsman para tratar dos interesses da organização, de um ouvidor sensível às solicitações do mercado, e até de gestores de relações internacionais. Outras organizações concentram sua força em processos mais sofisticados tipo CRM e marketing de relacionamento. Nem as universidades/faculdades ficam fora desse jogo; praticam o marketing de relacionamento para manter alunos, atrair os pais, os egressos e monitorar a comunidade de modo a vencerem a concorrência na disputa de inscrições para seus vestibulares.

Existe, portanto, uma tendência que se concentra na relação organização/mercado, no gerenciamento da interdependência das partes interessadas, que podem representar fornecedores, clientes, consumidores, áreas governamentais, políticas, financeiras, e muitas outras. Esse cenário aponta o surgimento de novas funções que estão a exigir profissionais especializados que as ocupem. Onde estão eles? Se existem as vagas, quem as empresas estão contratando para preenchê-las?

Toda vez que se criam novas funções dentro da estrutura empresarial e não há clareza sobre os profissionais que devem ocupá-las, as organizações promovem algumas pessoas de sua própria força de trabalho, conforme a natureza do processo, a competência e a maturidade do funcionário, levando-se em conta capacidade de bem se relacionar com as pessoas. Para as funções citadas, o contratado pode ser um advogado, um engenheiro, um administrador, um economista, um representante do setor de marketing, um publicitário, um jornalista ou um representante do setor administrativo, de recursos humanos. O que seria ideal, selecionar um relações-públicas? Não são funções próprias de sua atividade?

O que se ouve com freqüência desses profissionais é que essas posições são específicas de sua atividade; os que as ocupam estariam usurpando o direito de uma profissão regulamentada. Se essa alegação for verdadeira, por que eles não as assumem? As empresas não sabem que existem ou não os reconhecem com a devida competência? Ou os relações-públicas não estão preparados para assumi-las?

Seja qual for a razão, o fato é que existem muitas funções de relações públicas sendo exercidas por profissionais que não dominam sua teoria e suas técnicas. Essa situação poderia ser explicada pela falta de reconhecimento da atividade pelas empresas, pela não-existência de profissionais qualificados, por seu posicionamento tímido, que interpreta erroneamente o conceito e a visão estratégica de relações públicas no mundo contemporâneo? O que pode ser feito para que as relações públicas assumam a posição que deveriam ter no mercado e reverter essa situação? Algumas sugestões podem ser consideradas:

Primeira: Convencer os relações-públicas de que devem ser reconhecidos pelo significado de sua função, como profissionais de relacionamentos, especializados na elaboração de projetos bem estruturados das relações organizacionais com seus diversos públicos.

Segunda: Convencer esses profissionais de relacionamentos que seu principal campo de ação são os assuntos públicos, as relações publicas das organizações com o mercado, que a organização não se realiza com programas de comunicação, de campanhas e de publicações internas, mas pela visão macro do mercado nas suas relações públicas com o mundo dos negócios: governo, fornecedores, parceiros, clientes, banqueiros, financeiras, grupos produtivos setoriais, associações de classe, conglomerados, multinacionais, comércio exterior, concorrentes, para citar algumas das preocupações que interferem na luta das organizações pela sobrevivência no mundo globalizado.

Terceira: Persuadir os profissionais de relacionamentos que só assumirão posição definida no mercado no dia em que se convencerem de que sua atividade é muito maior do que fazer comunicação com empregados; é uma atividade pública que deve tratar dos interesses públicos das organizações.

Quarta: Demonstrar aos empresários que relacionamentos não podem ser considerados funções isoladas, nem ser bem sucedidos sem uma política corporativa de ação e de diretrizes que os orientem para atender com eficácia cada um dos públicos segundo suas necessidades e características. Que não podem ser estabelecidos apenas com alguns públicos (consumidores, fornecedores, por exemplo), mas com todos os que forem identificados como essenciais para a organização. Isso exige um projeto corporativo, visão estratégica com objetivos bem estabelecidos, estratégias e táticas definidas, que só podem ser elaboradas com sucesso por quem é especializado neste campo: os profissionais de relacionamentos.

Quinta: Provar para as faculdades que o mercado já está acenando, há muito tempo, para novos rumos das relações públicas e até antecipando seu exercício, por isso, precisam repensar seus projetos pedagógicos, concentrando-se mais nos aspectos teóricos e estratégicos e menos na mídia, na formação de comunicadores internos, fazedores de veículos internos, incapazes de compreenderem o mundo onde as organizações operam. É preciso incluir nos projetos disciplinas que preparem o profissional de relacionamentos solicitado pelo mercado, tais como: assuntos públicos, comunicação pública, conceito corporativo, opinião pública, pesquisa, cultura organizacional, responsabilidade social, empreendedorismo, relações com o mercado, visão global de negócios, atuação de ombudsman e ouvidores, marketing de relacionamento e visão macro do complexo campo produtivo e mercadológico das organizações contemporâneas em um mundo altamente competitivo e globalizado.

Sexta: Aconselhar os profissionais de relações públicas para que facilitem a compreensão da atividade e do que fazem, abandonando uma denominação inespecífica e adotando a de profissionais de relacionamentos, relacionistas, relatores públicos, relacionadores públicos, ou outra, que indique claramente para que existem e o que fazem, o que contribuiria para que obtivessem maior aprovação e para a conquista de sua verdadeira posição no mundo das relações públicas nos negócios.


Outros artigos da série:

Texto I - O que é preciso fazer para construir o conceito positivo das relações públicas?

Texto III - É hora de somar forças: manifesto pela valorização das relações públicas.

Texto IV - A qualificação necessária: o registro profissional.

 
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