Doutor
em Relações Públicas pela Universidade
de São Paulo. Professor e coordenador do Núcleo
de Produtos da Agência Experimental de Relações
Públicas da UMESP. Autor dos livros: "Públicos:
como identificá-los em uma nova visão estratégica"
e "Manual da Qualidade em Projetos de Comunicação"
em co-autoria com Sidinéia Freitas.
Texto
I
O
que é preciso fazer para construir o conceito positivo
das relações públicas?
Valorizar
a profissão de relações públicas é
um tema recorrente. Retorno a ele porque continua a ser dito por
professores, profissionais e alunos que a profissão de
relações públicas não é valorizada;
é preciso fazer alguma coisa para mudar essa situação....
Pode-se
indagar: fazer o que? Começar por onde? Ou melhor, por
que não se faz ou se faz tão pouco para que a atividade
seja reconhecida dignamente entre as habilitações
da área da comunicação social?
A
solução já foi apontada por entidades representativas
da categoria, por profissionais que ainda nelas acreditam (ou
fazem de conta que acreditam), o que é expresso em uma
frase grandiloqüente: relações públicas
precisam fazer relações públicas de si mesmas
(sic).
A
Bíblia - fonte de sabedoria divina e humana – afirma
que se conhece a árvore pelos seus frutos e que, quando
o empresário vai a seu pomar colher sua safra e verifica
que algumas árvores não produziram nada, ele as
arranca e joga ao fogo para não continuarem a ocupar um
espaço que deve ser produtivo.
Este
poderia ser um primeiro argumento – indagar que benefícios
vêm trazendo as relações públicas para
as organizações e a sociedade? Como se pode valorizar
uma atividade que não se traduz em vantagens, que não
apresenta excelência no seu exercício?
Neste
sentido, a primeira coisa a se fazer será demonstrar o
que é a atividade, o que faz, para que serve, que benefícios
pode trazer para quem dela faz uso. Não basta dizer que
se trata de uma atividade estratégica, é preciso
dizer com clareza por que é estratégica e como se
insere ou pode fazer parte integrante do planejamento estratégico
da organização. Surge, porém, desse raciocínio
a pergunta: alguém está fazendo isso de maneira
inteligente e permanente? Em outras palavras, existe preocupação
das entidades representativas da profissão ou das 70 faculdades
que oferecem o curso de relações públicas
no Brasil em assumir essa bandeira?
Qual
a faculdade de relações públicas que valoriza
o seu curso? Todos sabemos que é considerado o menos interessante
entre as habilitações da comunicação
social, aquele que é procurado muitas vezes por vestibulandos
que não conseguiram vagas nas habilitações
de propaganda, jornalismo, mídias digitais... Nele quase
não se investe. Em muitos casos, os alunos não têm
acesso aos laboratórios, nem suporte de bibliografia atual
nas bibliotecas e, apesar da exigência legal, há
professores sem a habilitação específica
e aqueles que menosprezam abertamente a atividade. Compensará
oferecer vantagens a um curso no qual muitos alunos procuram apenas
um diploma de bacharel em “qualquer coisa”, e não
pretendem seguir uma carreira? Quantas faculdades valorizam as
relações públicas, mantendo um departamento
de relações públicas para estabelecer as
suas políticas de relacionamentos com o meio acadêmico,
a sociedade, a comunidade onde está inserida?
Como
se vê, a afirmação de que é preciso
valorizar a atividade continua sendo retórica. Honra seja
feita, já houve até campanhas promocionais das relações
públicas. Que resultados apresentaram? Acredito que divulgar
cartazetes, folhetos, volantes, não alterará em
nada o conceito sobre a atividade e a profissão. É
preciso ousar mudar a visão que se tem da natureza das
relações públicas de modo que venha a assumir
a posição política e de liderança
que lhe cabe na gestão dos relacionamentos das organizações
com seus públicos e não fique sendo considerada
apenas como uma atividade de apoio a marketing, a recursos humanos,
à comunicação organizacional, como se costuma
afirmar.
É
preciso inovar na promoção das relações
públicas; empregar recursos que superem campanhas isoladas,
com mensagens vazias, dirigidas a públicos incertos. É
preciso o envolvimento das entidades da categoria, dos empresários
do setor, das faculdades, dos profissionais e estudantes, de muita
troca de conhecimento sobre a atividade e a profissão.
Como se vê, a dificuldade para valorizar as relações
públicas é muito grande. O tema deve ser debatido
por todos para se chegar a um projeto bem fundamentado neste sentido.
Além disso, é preciso tratar o assunto de maneira
objetiva, profissional e transparente, para se criar um movimento
inovador e crítico de valorização das relações
públicas. Inicio minha colaboração apresentando
algumas idéias que podem ser trabalhadas, com as de outros
profissionais, para se atingir o objetivo de construir o conceito
contemporâneo da atividade e da profissão.
1.
Como profissão legalmente constituída, o Sistema
Conferp/Conrerps precisa encontrar meios para fazer com que os
profissionais, para o exercício legal da sua função,
tenham o seu registro e dele se orgulhem como os engenheiros,
médicos, advogados, psicólogos, contadores e outros
praticantes de profissões regulamentadas ao mostrarem a
todos sua competência pela posse de sua carteira profissional.
E mais: insistir para que as empresas exijam esse documento no
momento da contratação como o fazem para os profissionais
amparados pela lei.
2.
Afirmar positivamente, alto e bom som, o que são as relações
públicas e o que fazem, quais são seus pressupostos,
como trabalham os profissionais, que vantagens estratégicas
oferecem às organizações como gestores de
projetos de relacionamento e de comunicação diante
do mercado. Em seguida, abandonar a atitude defensiva de dizer
que outros profissionais “invadiram o nosso mercado de trabalho”.
Por que os relações-públicas não respondem
às empresas, ocupando os espaços que lhes oferecem
e que lhes cabem? Não estão preparados?
3.
Demonstrar que, pela sua natureza, as relações públicas
devem atuar, de fato, como uma atividade pública, interlocutora
legítima da empresa com os públicos e gestora dos
assuntos públicos das organizações na sua
relação com a sociedade.
4.
Estabelecer um processo de unificação conceitual
da atividade e das campanhas de sua promoção por
parte das entidades que a representam e criar, por meio desse
processo, o verdadeiro espírito de corpo da categoria.
A verdade é que, tratando-se de uma profissão de
caráter público, nenhuma dessas entidades será
bem sucedida, nem ajudará a profissão, agindo isoladamente,
segundo os interesses de suas lideranças.
5.
Promover a realização de pesquisas e estudos sobre
a atividade, suas diferentes áreas de atuação
e especialização, como forma de projetá-la
diante dos empresários, comprovando por meio de dados científicos,
a excelência das relações públicas
a serviço da sociedade e das organizações.
6.
Abrir espaço na mídia para as relações
públicas por meio da produção de excelentes
textos, o que pode ficar a cargo de uma equipe de articulistas,
com pauta bem estabelecida, coordenados sob a liderança
de uma das entidades da categoria ou de uma universidade. Esses
textos devem explicar ao mercado o que é a atividade e
como pode contribuir de maneira estratégica para o bem-estar
social e empresarial. A carência deste tipo de literatura
e a não-presença na mídia é uma das
grandes fraquezas da atividade entre nós.
7.
Criar uma equipe qualificada para promover a atividade junto aos
empresários a partir da alta administração,
como fizeram os japoneses na implantação do programa
de Qualidade Total. Nesta mesma linha, oferecer aos empresários
por meio das entidades que freqüentam, palestras, conferências,
como forma de sensibilizá-los e esclarecê-los sobre
a importância da contratação dos serviços
de relações públicas. Esse trabalho com empresários
é fundamental para o progresso da atividade no Brasil.
8.
Dar qualidade profissional aos eventos programados pelas entidades
da categoria, como congressos, seminários, encontros e
outros eventos. Esses dias devem ser de intensos debates, bem
programados e orientados, para ressaltar a importância da
atividade na interação da organização
com seus públicos e com a sociedade.
9.
Promover, via entidades da categoria ou em convênio com
uma universidade, um curso intensivo de qualificação
profissional para o exercício da atividade, formação
de professores, ou para o ensino de especializações
dos jovens profissionais, em especial, as não contempladas
com a devida atenção na matriz curricular.
10.
Estimular dentro dos cursos de Relações Públicas
a produção de pesquisas, monografias e estudos como
forma aprofundar o conhecimento dos alunos sobre a atividade e
de produzirem textos que possam vir a ser publicados como rica
contribuição da academia; para isso, é aconselhável
que se criem “redes de aprendizagem”, núcleos
de estudos de relações públicas, coordenados
por professores, nas faculdades que oferecem o curso.
11.
Fazer parcerias com universidades/faculdades para promover, em
um mesmo período do ano, encontros, debates, oficinas com
os alunos e os praticantes de relações públicas
nas suas diferentes formas de atuação, para facilitar
o intercâmbio universitário entre as diferentes faculdades,
pelo menos regionalmente. Nessa oportunidade, promover visitas
de estudantes às empresas para aprenderem in loco como
adotaram as relações públicas para o sucesso
de seus negócios.
12.
Promover a colocação dos universitários como
estagiários ou trainees em empresas que lhes possam proporcionar
treinamento e até uma carreira profissional.
13.
Levar as faculdades à compreensão da importância
das relações públicas para as organizações
globalizadas, preocupadas com o relacionamento com seus públicos,
e que procuram gestores de projetos de relacionamento e de comunicação,
capazes de atuarem em sintonia com os processos de gestão
do conhecimento e da governança corporativa, para o êxito
de seus negócios.
O
problema não é definir, mas conhecer a natureza
global das relações públicas como responsáveis
pela gestão das políticas permanentes de relacionamento
e da comunicação das organizações
com seus públicos de interesse, como defendemos em nossa
tese de doutorado. A campanha de valorização deve
começar pela implantação de uma mentalidade
global, de “comunidades criadoras de conhecimento”
(learning PR communities) sobre o que são e o que fazem
as relações públicas. Estou aberto ao debate
para ajudar a construir o conceito inovador e bem fundamentado
das relações públicas e de seu papel. É
preciso pensar grande, trocar conhecimentos.