Relações Públicas: "sejam bem-vindos"!

Claudio Cardoso é Doutor em Comunicação, Professor do Programa de Pós-graduação da Faculdade de Comunicação, UFBA, Coordenador do Grupo de Estudos de Novas Tecnologias e Comunicação Organizacional, GENTE, e Consultor de e-Business em diversas organizações nacionais e internacionais, dentre elas a Petrobrás, a Agência Nacional do Petróleo, as Organizações Odebrecht, o Grupo Jerónimo Martins, a Hewlett-Packard, a Unext.com, dentre outras.

RP em Revista: Professor Cláudio, qual a sua função no âmbito das pós-graduações da UFBA?

Prof. Cláudio Cardoso: Sou um professor lotado na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (FACOM). São dezessete escolas de comunicação de alto nível no país que oferecem mestrado ou doutorado, mas estas não desenvolvem praticamente nenhum pensamento ou pesquisa científica sobre comunicação organizacional. Existe uma cisão nas mentalidades das faculdades de comunicação de ponta de todo o país no sentido de privilegiar os estudos de linguagem, jornalismo e sociologia da cultura. Há muito pouco interesse nos estudos sobre comunicação organizacional neste segmento. Por conta disso, aqui na BA me desloquei, mas apenas nas pós-graduações, para a Escola de Administração da UFBA, que está abrindo linhas de pesquisa no mestrado profissional, no mestrado acadêmico e no doutorado. Para sediar o nosso espaço a gente criou também uma especialização de gestão da comunicação organizacional integrada.Temos como foco o pequeno e médio empresário do produto baiano e profissionais de comunicação. Resumindo, minha função na UFBA é ser um líder de pesquisas e ensino de comunicação organizacional, especificamente no âmbito das pós-graduações, mestrado e doutorado stricto sensu.

RP em Revista: Então o público alvo de vocês não são apenas estudantes graduados em Relações Públicas?

Prof. Cláudio Cardoso: Profissionais de qualquer área de comunicação, jornalismo, publicidade, relações públicas, etc. Numa visão de comunicação estratégica entendemos que ela precisa de várias habilidades. O jornalista tem uma contribuição importante na comunicação estratégica assim como os profissionais de marketing, de RP, assessoria de imprensa... Porque a comunicação empresarial precisa destes vários talentos. Você não faz comunicação numa organização sem entender um pouco de jornalismo, RP, engenharia de processo de desenvolvimento e implantação de eventos, ou seja, esta visão tem que ser integrada mesmo.

RP em Revista: Qual a sua opinião sobre os profissionais de relações públicas comumente se depararem com vagas adequadas a suas atribuições, ocupadas por profissionais de áreas afins como o marketing, jornalismo ou administração?

Prof. Cláudio Cardoso: Dentro da comunicação existe uma perversa briga onde o jornalismo tem muito mais poder nas escolas de comunicação que os RPs. Acho o curso de jornalismo muito bom, completo, mas ele treina as pessoas para falar, não para ouvir. E as organizações precisam de muito mais de gente que é capaz de ouvir (como o RP que é treinado para ouvir o cliente) do que para falar. Acho que no mercado das organizações você precisa ouvir o cliente, criar um diálogo, e os jornalistas são muito ruins nisso, eles gostam de falar, de dar a notícia, falar a opinião deles, mas eles não sabem ouvir. A primeira fronteira que existe para um profissional de RP é a própria fronteira interna no âmbito da comunicação. O Relações Públicas deve entender que ele tem um papel de educador, ele é o cara que vai mudar a cabeça do empresário porque o empresário não entende de comunicação.

RP em Revista: Em que sentido?

Prof. Cláudio Cardoso: O empresário pensa a curto prazo numa economia hostil como a brasileira, em que você tem que correr atrás do fluxo de caixa. Toda a comunicação geralmente é voltada para a publicidade de venda. Você não consegue vender algo imediatamente com um discurso de longo prazo, como produção de marca, planejamento estratégico de comunicação. É a mesma coisa que liquidação de shopping center. Temos que começar a entender que comunicação não é responsabilidade de um ou dois na organização, que não é o canal para veicular mensagens pré-formatadas. É necessária outra forma de pensar a comunicação. O que eu preciso fazer para que meu cliente seja permanentemente bem atendido? Que ele venha para a liquidação do shopping, e que encontre o banheiro limpo, porque banheiro limpo também é assunto nosso. A alteração do produto, a forma como o produto é construído é assunto da comunicação. O RP que trabalha em um restaurante não fica apenas na porta sorridente, recebendo as pessoas, ele dá pitaco no prato e até na arrumação da mesa. Quando falamos em comunicação, entendam que não estamos falando mais do canal que veicula, do profissional que é mais os menos habilitado, ou da briguinha entre jornalistas e RPs, não é isso. É pensar que a comunicação é um elemento estratégico das organizações, ou seja, que reformata a organização. Que diz que ela está trabalhando errado e faz diferente. A comunicação da empresa não é apenas da porta pra fora ou da porta pra dentro, e sim, uma visão de que tudo comunica.

RP em Revista: Onde se insere o profissional de RP neste cenário?

Prof. Cláudio Cardoso: Ele irá fazer com que os empresários entendam que a comunicação não é um elemento acessório, não é apenas aquela menininha sorridente que promove eventos, mas alguém capaz de opinar sobre o trabalho dele, alguém capaz de mudar a empresa.

RP em Revista: Fale um pouquinho pra gente sobre como você enxerga o mercado profissional de Salvador e as pós-graduações locais.

Prof. Cláudio Cardoso: Bem, por ser uma cidade paupérrima, Salvador tem muito poucos postos de trabalho estruturados. Para atuar no mercado daqui é necessário adotar a postura de gerar riquezas. As poucas empresas mais estruturadas são grandes, e muitas vezes tornam-se verdadeiras camisas de força, onde você só pode fazer aquilo que foi designado para aquele papelzinho, não tendo oportunidade de trabalhar numa visão estratégica como falamos anteriormente. Porém, vocês podem aos pouquinhos ir criando o mercado, porque existe uma demanda gigante para ser explorada e eu fico impressionado como não a vêem. Por que não se formata um cursinho para educar todas as farmácias a fazer um bom atendimento no balcão? Fazer um CRM manual mesmo, sem computadores. Falta iniciativa.
Do ponto de vista da formação, não existe né? Só tem um curso de especialização que oferecemos na Escola de Administração da UFBA e também alguns poucos MBAs de faculdades reconhecidas. Os dois mestrados que temos na FACOM são voltados para cultura ou sociologia. Não há ninguém aqui que vá defender uma tese sobre marketing fora da Escola de Administração, só tem lá, então... sejam bem vindos.

RP em Revista: Que conselho você daria para aqueles estudantes recém chegados no mercado?

Prof. Cláudio Cardoso: Invistam logo na pós-graduação, e eu apostaria no mestrado primeiramente. Não se contentem apenas com sua língua mãe. Quanto mais idiomas dominar, melhor. Mas é necessário que domine bem a língua, não se limitando a cursinhos. Tem que ter fluência profunda mesmo, se houver condições, busquem ter experiências um tempo fora do país. Cultivem o hábito da leitura. Eu não conheço ninguém de alto nível que não leia bastante. E a última coisa que aconselho é que você seja disciplinado, tenha agenda, faça cronogramas, escreva o que quer, pois, não é só gravar na cabeça. Seja alguém que tem consistência, que planeja o que está pensando. E tenha iniciativa, o seu sucesso depende unicamente de você.

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