RP
EM REVISTA - Enquanto jornalista que trabalha com Comunicação
Empresarial, como vê os
desentendimentos que existem entre os profissionais de RP e
jornalismo em relação a atuação
neste mercado?
Bueno
- Acho a disputa, o embate, infelizmente ainda comuns
entre jornalistas e RPs, com muita tristeza e decepção.
A Comunicação Empresarial se caracteriza pela
sua multi e interdisciplinaridade e é fundamental somar
competências.
Há
uma contradição entre fazer a apologia da comunicação
integrada e, ao mesmo tempo, estimular a divergência entre
atividades profissionais que têm a comunicação
como foco. Enquanto nos digladiamos, colegas de outras áreas
ocupam o espaço. Devemos manter a nossa identidade mas
estarmos dispostos a trabalhar em equipe. Não há
outra opção: isolados, somos mais frágeis
e construímos menos.
RP EM REVISTA - A faculdade de jornalismo, na sua opinião,
forma o profissional para atuar na comunicação
organizacional?
Bueno
- Não. Eem alguns casos os cursos de Jornalismo
ainda mantêm inclusive preconceitos absolutamente equivocados
com respeito à área. É possível
imaginar que, gradativamente, esta situação tenderá
a se modificar mas o processo tem sido mais lento do que se
poderia e deveria imaginar. Mas sou radical: hoje em dia, na
era do aprendizado permanente, não há curso ou
universidade que possa formar, em 4 anos, um profissional competente.
As mudanças ocorrem a cada momento e é preciso
estar estudando, aprendendo o tempo todo durante toda a vida.
É ingênuo imaginar que um curso de graduação
ou de pós-graduação, seja ele de RP, Jornalismo,
Administração vá formar um profissional
para toda a vida. Quem apostar nisso certamente descobrirá
a verdade rapidamente e a verdade é bem dura. O passado
não garante nada: temos que investir é no futuro.
Convivemos
ainda com um problema: com algumas poucas exceções,
os nossos cursos superiores (e não são apenas
os de comunicação) não habilitam para coisa
alguma porque estão cada vez menos seletivos, mais avacalhados,
menos sintonizados com o que ocorre no mercado, pouco críticos.
Os cursos estão formando mão-de-obra e nós
precisamos de gestores, de gente que saiba planejar, refletir,
pesquisar. Não se forma um profissional com este perfil
em 4 anos.
Pesquisa
recém realizada em São Paulo e Rio de Janeiro
mostrou que os nossos universitários, em sua grande parte,
não lêem, não se atualizam e eu pergunto:
é possível falar em profissional competente num
cenário desses? Continuo sendo aluno e me orgulho disso.
Se alguém acha que apenas o diploma leva a algum lugar,
perceberá logo o engano. Temos mais de 500 cursos de
comunicação no País, cerca de 30 Programas
de Pós-Graduação em Comunicação
e há gente que acha que já é o máximo
porque fez um curso de 4 anos. Um bom curso de comunicação
(RP, Jornalismo, Publicidade) é apenas um bom começo.
Nada mais do que isso. Depois dele, tem muito chão pela
frente.
RP EM REVISTA - Você acha que a atividade de assessoria
de imprensa pode ser desenvolvida por
um jornalista que trabalha num veículo de imprensa?
Bueno
- Por princípio (e esta é a minha opinião
pessoal), o assessor de imprensa de uma organização
não deveria ter vínculo com veículos, assim
como não é confortável a posição
de um jornalista de redação que acumula as funções
de assessor de imprensa de uma organização.
Alguns
veículos proíbem esta dupla função
porque admitem, a meu ver corretamente, que há conflitos
nesta acumulação simultânea das funções
de jornalistas e assessores de imprensa. Em Portugal, por exemplo,
quando o jornalista começa a trabalhar em uma organização
como assessor de imprensa entrega imediatamente a sua carteira
de jornalista. Somos por aqui menos radicais, mais flexíveis,
mas não devemos, por isso, afrontar a ética profissional.
Só posso falar por mim: se sou editor num jornal, revista
ou TV, não permito que jornalistas sob a minha coordenação
acumulem funções de assessores numa empresa ou
no governo. Mas como esse país não anda muito
bem das pernas podemos encontrar de tudo: é um vale-tudo
mesmo mas, a meu ver, há posturas que não fazem
sentido. Mas cada um com a sua consciência. A minha não
permite esta dupla jornada.
RP EM REVISTA - Você acha que a noção
de responsabilidade social tem sido bem utilizada nas organizações
brasileiras?
Bueno
- Em geral, não. Confunde-se responsabilidade
social com filantropia e com marketing social e há um
discurso que, muitas vezes, se caracteriza pelo oportunismo.
O conceito, apesar do esforço do Instituto Ethos e de
outras entidades, não tem sido bem assimilado e muitas
empresas julgam que ser responsável socialmente significa
apenas realizar ações pontuais. Eu sempre digo:
doar cestas básicas os traficantes e os políticos
corruptos também fazem. Responsabilidade Social tem a
ver com filosofia de gestão, com cultura organizacional,
com compromisso e não se reduz a ações
mercadológicas.
Há
universidades que julgam que são socialmente responsáveis
apenas porque reduzem o preço das mensalidades; há
empresas se aproximando de ONGs legitimas para usufruírem
de sua boa imagem e reputação. O mercado, infelizmente,
nem sempre age com ética e transparência, mas é
fácil de entender: ele reflete a postura de muitos profissionais
que aí estão, verdadeiros parias da Comunicação
Empresarial.
Tenho
horror a agências, assessorias e profissionais que se
especializam na tarefa de "limpar a imagem" de organizações
não éticas. Esse não é um trabalho
de comunicação empresarial, pelo menos da comunicação
empresarial que defendo. Agem como advogados de porta de cadeia.
A
Comunicação Empresarial brasileira está
muito distante de uma postura socialmente responsável
quando se presta a manipulações de todo o tipo.
Um diagnóstico mesmo que superficial da comunicação
interna em nossas organizações mostra que elas
estão anos-luz de distância do que poderia ser
considerado ideal. Como sempre, as exceções (felizmente
elas existem) confirmam a regra. A mídia cobra responsabilidade
social das organizações e dos governos, mas estão
em condições de fazer essa cobrança? A
meu ver, o discurso não bate com a prática. Somos
um país de hipócritas.
RP
EM REVISTA - Qual a avaliação que faz da Comunicação
Empresarial desenvolvida no Brasil?
Bueno
- Acredito que caminhamos para uma profissionalização
crescente, com a qualificação gradativa de empresas,
agências e assessorias, mas julgo que ainda falta exercitar
o espírito crítico, estimular a pesquisa, implantar
um sistema efetivo de inteligência empresarial.
Temos
um caminho enorme para trilhar , estamos dando ainda os primeiros
passos. A Comunicação Empresarial moderna não
pode ficar refém da intuição e do improviso
de profissionais e chefias. Estamos caminhando mais rapidamente
para sermos competentes na comunicação com os
públicos externos do que com os públicos internos,
o que evidencia um viés e um erro de perspectiva.
A
universidade precisa refletir sobre o que acontece no mercado
e não apenas reproduzi-lo. Estamos fartos de cases bonitos,
mas quase sempre falsos. Muitos gerentes de comunicação
estão mais empenhados em obter prêmios do que em
praticar a verdade, a transparência. A Comunicação
Empresarial brasileira precisa descartar esta atitude pelega
de muitos profissionais, refém de seus empregos e clientes.
Somos
menos capacitados do que deveríamos ser e a maioria das
nossas organizações, apesar do discurso, ainda
julga a comunicação como item de despesa. A comunicação
estratégica é uma ficção no quadro
brasileiro. Mas, se consolo adianta, pelo menos as organizações
já descobriram que a comunicação deveria
ser estratégica, integrada, democrática. Agora,
só falta colocar em prática. Está difícil
porque vai ver que fazer as coisas corretamente dói muito
e as empresas, como diz o povo, querem sombra e água
fresca.
RP
EM REVISTA - Você será um dos homenageados da segunda
edição do Prêmio Relações
Públicas do Brasil, recebendo a distinção
"Amigo das Relações Públicas".
Como está recebendo esta homenagem dos relações
públicas brasileiros?
Bueno
- Sinto-me feliz e honrado com a homenagem. Tenho um
respeito profundo pelo trabalho dos relações públicas
e desde longa data convivo com eles em absoluta harmonia, no
mercado e na universidade. Já orientei inúmeros
colegas na universidade e tenho aprendido muito com eles, aprendo
todos os dias. Tenho dito sempre e repito aqui: se os governos
incorporassem um pouco mais a experiência e o conhecimento
dos relações públicas certamente teriam
um diálogo mais amplo e mais saudável com os públicos
e com a sociedade de maneira geral. Temos uma massa crítica
excelente na área e me orgulho de ser amigo dos relações
públicas, sobretudo daqueles que estão, como eu,
empenhados em qualificar a comunicação empresarial
brasileira. Juntos, venceremos este desafio imenso. Sozinhos,
não iremos a parte alguma. Um grande abraço aos
Relações Públicas. A Comunicação
Empresarial seria manca sem vocês.
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