Há
vida inteligente na blogosfera mineira de relações
públicas: com a palavra Ricardo Moraleida

Relações-públicas
mineiro Ricardo Moraleida
Graduado
em Relações Públicas pela PUC/Minas,
desde 2005, e pós-graduado em Administração
com ênfase em Gestão de Projetos pela
Fundação Dom Cabral, o relações-públicas
mineiro Ricardo Moraleida se destacou no último
dia 2 de dezembro, com um post irreverente, como ele
mesmo diz: “com grandes níveis de ironia”
mas acima de tudo pelo alto grau de inteligência.
Moraleida, que até então estava no anonimato,
subestimado pelos colegas mineiros, sem vez e sem
voz nos espaços de divulgação
que existem no estado, trabalha na área de
comunicação desde 2002 e mantém
o blog “Dois
ouvidos” desde 2006. Este ano,
“mudei de lado do balcão e assumi o posto
de Gerente de Projetos da agência Aliás
Comunicação, onde sou responsável
pela especificação e planejamento de
projetos interativos web e móbile”, explica
Moraleida. Além disso, Ricardo é professor
universitário e ensina a disciplina “Comunicação
Corporativa e Novas Tecnologias” no Centro Universitário
Newton Paiva, para o curso de pós-graduação
em Comunicação Corporativa. Na entrevista
exclusiva que deu ao Portal RP-Bahia falou tudo que
muitos relações-públicas brasileiros
gostariam de falar, mas não têm coragem.
Vale conferir!
RP-BAHIA: Como vê a atuação
do conselho de classe de relações públicas
no Brasil?
Desde a minha época de faculdade,
me lembro de conversar com os professores sobre isso
e inclusive ser desaconselhado a me registrar, porque
o registro efetivamente não tem valor profissional
- além de estar entre os mais caros registros
profissionais do Brasil. A única atuação
do conselho que vejo influir no mercado é justamente
a que me coloca contra essa instituição:
o incentivo à denúncia de profissionais
que exercem a profissão ilegalmente. Ou seja,
além de contribuir pouco com a "vida real"
dos profissionais, promove uma "caçada"
aos demais, como uma forma de garantir uma reserva
de mercado que não precisaria existir se os
relações-públicas galgassem seus
postos no mercado através da excelência
na sua formação e no seu trabalho.
O uso de terminologias como "Analista
de Comunicação" ou "Assessor
de marketing" é um dos mecanismos de fuga
do mercado a esse controle que não faz sentido.
No CONRERP 3ª Região, o número
de profissionais com registro em baixa temporária
é quase igual ao número de profissionais
ativos; o que isso nos diz a respeito da atuação
do Conselho?
RP-BAHIA: Qual a sua opinião sobre
a queda da obrigatoriedade legal de diploma para exercer
a função de relações-públicas?
Sou a favor da queda, assim como fui
a favor da queda do diploma de Jornalista. Acredito
que os critérios a respeito da permissão
de exercício das profissões da área
de Ciências Sociais Aplicadas precisam ser muito
mais trabalhados do que a alternativa binária
atual: com diploma sim, sem diploma não. O
diploma não garante a boa formação
ou o bom exercício da profissão, ele
é somente um certificado de que aquele profissional
foi submetido a um número de horas de treinamento
- se ele fez bom uso delas ou não fica fora
dessa avaliação. Infelizmente não
é tão simples fazer uma prova pra saber
se o candidato tem "senso crítico",
assim como não faz sentido uma avaliação
para determinar se ele sabe posicionar bandeiras atrás
de uma mesa. É preciso um ou vários
outros mecanismos.
No mundo real, nas relações
entre empresas e stakeholders, não existe motivo
para a separação de funções
entre as áreas da comunicação.
É natural que profissionais com mais aptidão
para a produção de eventos, para o relacionamento
com comunidades ou para o marketing concentrem-se
em suas áreas de excelência. Em geral,
o que determina essa escolha são as chamadas
"soft skills" ou "people skills":
a capacidade de trabalhar sob pressão, o jogo
de cintura, a disposição para diálogo
direto com os públicos e diversas outras características
que compõem os matizes da formação
em comunicação.
O que não é natural
é querer fazer uma separação
fria dessas habilidades apenas pelo diploma que o
profissional carrega. Dizer que um bom relações-públicas
precisa voltar à universidade por mais um ou
dois anos para poder se relacionar com a imprensa
ou que um bom publicitário precisa do mesmo
trajeto para formular planejamentos de comunicação
organizacional é no mínimo ingênuo
- pra não dizer contra-producente. As habilidades
que diferem uma área de comunicação
da outra são puramente técnicas, e podem
ser tão bem aprendidas na prática de
mercado ou em cursos livres de boa qualidade quanto
na universidade.
RP-BAHIA: Por que acha que o diploma de relações
públicas não tem nenhum valor para o
mercado?
O diploma de RP, assim como os outros
diplomas da área de comunicação,
é muito válido pela formação
crítica e humanista dos profissionais, pelo
tipo de abordagem do cotidiano e das ferramentas de
comunicação. A formação
em comunicação é muito bem vista
pelo mercado e pelas empresas, pela visão diferenciada
e "fora da caixa" que oferece aos bons profissionais.
O que eu disse no blog é que
o diploma de Relações Públicas
não oferece nenhuma vantagem competitiva no
mercado, ou seja, pra quem busca uma oportunidade
em comunicação, não é
mais vantajoso se formar em RP do que em Publicidade,
Rádio e TV ou Jornalismo - todos os diplomas
estão em pé de igualdade. Ao contrário
do que se pode pensar, isso não é um
problema ou um motivo para não buscar a formação.
O diploma universitário deve focar na formação
humana e crítica. Se a formação
profissionalizante não for oferecida pelas
escolas, o mercado se encarregará disso, da
mesma forma como faz com as profissões de nível
técnico.
RP-BAHIA: Fale um pouco do seu projeto na
Internet e a que ele se propõe.
Meu "projeto" de internet
não tem grandes pretensões. Mantenho
um blog pessoal apenas, desde 2006, onde coloco as
minhas impressões sobre o mundo, inclusive
aquelas relacionadas aos temas da comunicação.
Em geral falo de temas mais abrangentes da sociedade.
Já ensaiei iniciar um blog profissional, para
falar sobre comunicação, mas é
fato que me falta tempo e eu preciso cuidar da vida
lá fora também, mas quem sabe um dia?
Enquanto isso, me engajo em todas as discussões
que consigo, em blogs, no twitter ou em outros espaços.
RP-BAHIA: Você escreveu recentemente
um texto bastante irreverente no seu blog e criticou
alguns profissionais, sendo que foi mais contundente
nas críticas as ações do colega
Rodrigo Cogo. Você não tem medo de represálias?
Sofrer represálias por algo
que eu escrevi não faz sentido em um mercado
que se diz qualificado. Eu fiz uma crítica,
irônica, a respeito de dois materiais que estão
no site dele, e em momento algum isso foi um ataque
pessoal. Não fazemos isso o tempo todo com
as marcas e materiais dos nossos clientes e concorrentes?
Que etiqueta é essa que permite que façamos
críticas desde que não se aponte onde
está o erro?
RP-BAHIA: Por que ironizou tanto com o logotipo
do portal Mundo RP? O que exatamente você acha
da logo do portal Mundo RP?
Imagine que você é um
leigo, um estudante procurando um curso de vestibular,
ou um CEO em busca de um profissional para liderar
ou compor a área de comunicação
da sua empresa; em algumas pesquisas na internet você
encontra o portal Mundo RP, o portal Jornalistas de
Minas (www.sjpmg.org.br) e o site do Clube de Planejamento
de MG (www.clubedeplanejamento.com.br).
À primeira vista, quais as
chances de os profissionais de RP serem considerados
iguais, em qualidade técnica, aos jornalistas
e publicitários que mantém os outros
sites? Quais as chances de você se interessar
e ler o conteúdo do portal para conhecer melhor
os profissionais que se reúnem ali?
É fato que sob o aspecto técnico,
a marca é fraca em termos de conceito/mensagem
e de aplicabilidade. Se quisermos ser respeitados
pelo mercado, é preciso reconhecer que as áreas
em que não somos bons, como o Design, e saibamos
jogar o papel de gestores, e delegar essas tarefas
a outros profissionais melhor habilitados.
O logo do Mundo RP foi apenas um exemplo,
e existem diversos deles por aí. Eu considerei
emblemático por ser a marca de um portal que
é referência na rede, que tem à
frente um profissional com bastante tempo e experiência
de mercado. A imagem que a utilização
do logo me passa é que os relações-públicas
estão fazendo pouco pela própria imagem:
"casa de ferreiro, espeto de pau". Entendo
que a marca esteja lá por um motivo, que não
sei qual é, mas pode ser pessoal do profissional
que mantém o portal - e isso não é
um problema. O questionamento que eu levantei não
é sobre a marca em si, e sim sobre o que essa
escolha representa para a imagem e o "reconhecimento"
da profissão - que era o foco da discussão
desde o princípio.
RP-BAHIA: Você tem alguma proposta para o fortalecimento
e/ou reconhecimento da profissão de relações
públicas no Brasil?
Eu acredito que o fortalecimento e
reconhecimento só será visto à
medida em que os resultados dos trabalhos dos profissionais
forem sentidos em grande escala. O mercado não
está interessando em campanhas de valorização
ou em profissionais pedindo reconhecimento, está
interessado em resultados.
Nesse sentido, os relações-públicas
estão atrás dos Publicitários
e Jornalistas na atividade de documentar os seus sucessos
e fracassos, como forma de aprender com eles. Posso
estar enganado, mas não conheço nenhum
banco de cases, por exemplo, que publique, categorize
e permita a pesquisa de experiências completas
e interessantes desenvolvidos em planos de Relações
Públicas, especialmente em comunicação
interna. Em tempos de web 2.0, talvez esse seja um
bom lugar para começar a divulgar que sim,
existem bons resultados e bons profissionais, e agregar
aqueles que ainda não participam das comunidades
existentes - o que em si já é um grande
desafio.
RP-BAHIA: Qual a mensagem que deixa aos futuros
colegas que sairão com um diploma de relações
públicas da faculdade nos próximos anos?
O sucesso no mercado de trabalho depende,
em grande parte, das escolhas que você, como
profissional, faz no direcionamento da sua carreira.
As escolhas certas não garantem o sucesso,
mas aumentam em muito as suas chances. Se os universitários
de hoje saírem das escolas tendo aprendido
a questionar e debater idéias e a pensar “fora
da caixa”, acredito que já terão
feito jus a seus diplomas. O pensamento crítico
em comunicação, que se aprende mais
nas aulas teóricas do que nas práticas,
é muito mais valioso para o mercado do que
o ensino técnico, de manual, sobre como fazer
planejamento de comunicação.
No entanto, é muito mais fácil
encontrar estagiários que sabem programas gráficos
ou fotografia do que encontrar aqueles que sabem criticar
um trabalho ou uma idéia, que sabem defender
seus ideais, reconhecer quando estão errados
e aprender com isso. Mas são essas últimas
características que importam, no fim das contas.
Uma empresa sempre vai pagar pelo aperfeiçoamento
para um profissional que o mereça, mas nunca
vai manter um profissional que não sabe se
relacionar ou pensar criticamente só porque
ele sabe compor uma mesa de autoridades. Por fim,
o mercado está de braços abertos esperando
por pessoas qualificadas e dispostas, que entendam
o significado de comunicação integrada,
deixando de lado as fragmentações que
não fazem sentido.
RP-BAHIA:
Caso queira acrescentar algo que não foi perguntado,
por favor, fique a vontade.
As questões que eu levantei,
tanto no posts do meu blog, como aqui, são
simplesmente formas de colocar um olhar crítico
sobre a postura que assumimos como profissionais.
Não acredito que elas devam ser levadas como
ofensas pessoais por quem quer que seja. Fiz questão
de responder a todos os questionamentos que surgiram
no meu blog e continuo aberto ao debate com os leitores
do Portal RP-Bahia - saber debater idéias é
mais importante do que estar certo.
Já fico muito feliz de saber
que essas idéias impulsionaram um debate sobre
as práticas, as aspirações e
os movimentos dos relações-públicas
brasileiros, buscando um reconhecimento mais realista
e baseado em resultados. Espero que o debate se torne
cada vez mais ativo e consistente!