Comunicação Interna e Governança Corporativa
A
Governança Corporativa, há mais de uma década,
freqüenta com desenvoltura o discurso empresarial , associada,
quase sempre, à idéia de transparência, de
responsabilidade na gestão dos negócios e de outros
atributos positivos. Mas, como costuma acontecer, a história
nem sempre está muito bem contada e, por isso, é
preciso esclarecer alguns mitos que acompanham esta teoria e esta
prática em nosso País.
Em primeiro lugar, a Governança
Corporativa tem sido percebida, pela maioria das organizações
(e não só no Brasil!), como uma prática e
uma postura que se afinam com uma perspectiva exclusivamente financeira
e ela tem a ver (e quase sempre não extrapola esse público
e esse universo de interesses) com a relação com
os investidores.
Qualquer leitura que se faça
além desse nível significa uma generalização
equivocada e perigosa, particularmente para nós, comunicadores,
preocupados com a qualidade das relações com os
diferentes públicos e, no caso específico desta
coluna, com os públicos internos.
Pois é isso mesmo. Muitas
organizações que exibem orgulhosas as suas boas
práticas de governança corporativa (e há
muita hipocrisia e manipulação nesse discurso) continuam
tratando os seus públicos internos com absoluto desrespeito,
relegando a segundo plano os seus parceiros essenciais. Proclamam
transparência, relações saudáveis e
democráticas lá fora e continuam afrontando a diversidade
cultural, sufocando a divergência de idéias e opiniões
no ambiente interno. Exibem prêmios obtidos junto aos investidores
(a maioria interessada apenas no retorno de seus investimentos
e pouco preocupada, infelizmente, com a maneira pela qual ele
foi obtido), festejam seus lucros formidáveis mas, ao mesmo
tempo, demitem sem pestanejar os seus colaboradores (termo detestável,
mas bem ao gosto da hipocrisia empresarial) e lhes engessam os
salários.
A Governança Corporativa
precisa, urgentemente, ser estendida à Comunicação
Interna, embora, para isso, deva merecer alguns reparos e alguns
refinamentos. Os públicos internos, pra começar,
não deveriam ser pensados como clientes (e cá estamos
de novo cismados com o chamado endomarketing, uma proposta neoliberal
para reduzir egoisticamente os funcionários a “parceiros
mercadológicos”!) e muito menos como pernas e braços
que executam trabalhos, geram receitas e pronto. Muito pelo contrário:
a Comunicação Interna que se postula deve privilegiar
o diálogo, a gestão de conhecimentos, a partilha
de saberes e experiências e sobretudo o compromisso com
o desenvolvimento pessoal e profissional.
Muitas empresas que integram o
Novo Mercado são amadoras em termos de Comunicação
Corporativa e, por extensão, na Comunicação
Interna, e reduzem a interação com os públicos
internos a uma mera instância burocrático-administrativa,
aquela velha toada de “chefia e controle de pessoal”,
caracterizada por relações não democráticas,
não participativas (aliás, participação
é outro termo desgastado pelo mal uso no discurso empresarial),
onde predomina a comunicação descendente (da direção
para baixo, sem questionamentos). Basta acompanhar os seus jornais
internos (parece que ficam menos ruins quando são chamados
de “house organs”) para perceber que não têm
espaço para o debate, são insossos, insípidos
e inodoros, um mero oba-oba fora de época. Basta navegar
pelas suas intranets para descobrir que enxergam a comunicação
interna como um amontoado de comunicados sem interesse, um mural
eletrônico burocrático (há murais criativos,
é lógico) que não estimula, não seduz,
não é um convite para a leitura.
A Comunicação Interna,
que se pretende incorporada a uma gestão em que vigora
a autêntica governança corporativa (diferente dessa
que está aí e que nada vê além do “management”),
precisa estar respaldada no humanismo, no conhecimento do outro
e no respeito às suas demandas e expectativas. Não
pode estar condicionada a uma proposta que só tem olhos
para os lucros, para o aumento da receita, para os borburinhos
vertiginosos das Bolsas de Valores, porque, desta forma, continuará,
como parece ser a tônica, a enxergar os funcionários
como itens de despesas. Na verdade, sob esta perspectiva (que
ainda prevalece , apesar do discurso vazio da comunicação
estratégica), a própria comunicação
(e principalmente a comunicação interna) continua
também sendo vista como despesa e portanto sempre “encarada
como um estorvo no canto da sala”.
A Governança Corporativa
aplicada à Comunicação Interna tem de assumir
um novo paradigma, beber em outra fonte. Certamente, se isso fosse
feito, as empresas se dariam conta de que existe uma relação
estreita (e valiosa, lucrativa) entre a democracia interna e o
crescimento dos negócios. Não é possível
falar em governança quando se tem um ambiente interno deteriorado,
gestão autoritária, ausência de espaço
para troca de informações, controle e censura a
todo vapor.
As empresas precisam enxergar
além do “Novo Mercado” e abrir os olhos para
uma Nova Sociedade que se avizinha no horizonte. Uma sociedade
que não estigmatiza o lucro, mas que deseja vê-lo
compartilhado com todos aqueles que participam do seu processo
de obtenção. Uma sociedade que deseja, fundamentalmente,
saber a que custo social ele foi obtido e que cobrará juros,
atuais e futuros, das empresas que dão as costas à
sociedade e às minorias.
A Comunicação Interna
na genuína Governança Corporativa deverá
especialmente agregar valor às relações humanas,
valorizar o entendimento e a diversidade, mobilizar para a ação
comunitária, resgatar a solidariedade. Uma comunicação
interna, que diferentemente do modelo atual de Governança
Corporativa, não sobrepõe os interesses de uns poucos
aos dos interesses da maioria. A Comunicação Interna
não deve ser pensada como um reduto para a especulação,
para a competição sem escrúpulos, mas como
um espaço para a cidadania. A excelente governança
para a comunicação interna parte do pressuposto
de que só vale a vitória, se todos saírem
ganhando.
Cuidado com o andor que o santo
é de barro. Antes de aderirmos, sem perspectiva crítica,
ao conceito de Governança Corporativa, vamos submetê-lo
a este crivo. Quando importamos expressões, engolimos também
conceitos e posturas. É bom abrirmos bem os olhos. O discurso
empresarial, muitas vezes hipócrita e cínico, traz
inúmeras armadilhas. O comunicador comprometido com os
novos tempos deve manter a vigília.
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