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Informação, Inteligência e Utopia

ROBERTO PORTO SIMÕES

O maior e mais importante teórico de relações públicas do Brasil. Autor dos celebres Relações Públicas: Função Política e Relações Públicas e Micropolítica. Lançou recentemente Informação, Inteligência e Utopia.

As Babéis modernas ou “O primeiro caso de falta de RRPP"

Gênesis, 11 - A confusão das línguas
7. Eia, desçamos, e confundamos ali a sua língua, para que não entenda um a língua do outro.
8. Assim, o Senhor os espalhou dali sobre a face de toda a terra, e cessaram de edificar a cidade (e a torre).
9. Por isso se chamou Babel (confusão).

Babel foi o primeiro empreendimento humano, em termos de organização, cujo fracasso ocorreu por problemas de comunicação e poder. Eu diria, pela vivência como consultor de organização, que o "castigo do Senhor sobre os descendentes de Sem" persiste até hoje na maioria das empresas e governos ditos modernos.

Inúmeros são os dirigentes atuais sem consciência desse fator, justificando seus problemas através de outras causas. Falam, destacam e colocam em moda as gestões de produção, financeira, custos, potencial humano, marketing e pesquisa e desenvolvimento. Porém, esquecem-se do elemento do amálgama de todos esses outros componentes: a comunicação/poder, como processo e resultante, através do agir e do dizer. O pouco que têm valorizado essa função é sob a ótica da publicidade e da promoção de vendas, onde a presença do mito obscurece a realidade. A essência da comunicação e sua relação intrínseca com o exercício do poder, edificadora da estrutura organizacional interna e integradora dos interesses da empresa com os dos diversos outros públicos, que não somente os consumidores, é colocada em segundo plano.

Assim, as organizações públicas e privadas defrontam-se hoje em dia com conflitos internos e externos, notícias negativas na mídia, boatos, alta rotatividade de pessoal, desleixo com o ferramental e bens da organização, operações tartarugas, grupos de pressão, greves, ações na justiça e até convulsões sociais como quebra-quebras e sabotagens. Tudo impedindo melhores níveis de produção, de produtividade e qualidade e, com isto, reduzindo o poder competitivo da organização frente as suas concorrentes. As organizações públicas não perdem seu mercado por possuírem o monopólio, mas ganham o desprezo dos cidadãos.

Os dirigentes, em distintos níveis, não percebem que a existência da organização e toda sua estrutura de decisões não dependem somente da legalização perante o órgão público concedente. Necessitam, também, que suas decisões e ações intrínsecas às mesmas sejam legítimas e percebidas como tal pelos diversos públicos. Isto é, que impliquem o bem comum do todos os envolvidos com as consequências das mesmas. Ora, isso somente é possível se a organização, além de estar em troca constante de informações com seus públicos, aja de acordo com as expectativas dos mesmos e, quando não o fizer, se justifique através de explicações.

Babel era assunto público (comum) entre o povo de Sem e o Senhor. Aquele não se explicou e este não se agradou da decisão tomada pela "organização". Por isto e, também, por ter mais poder, o Senhor desmobilizou todo o empreendimento. Atualmente empresas desaparecem dos mercados e seus membros são "espalhados pelo mundo" por reações do "Senhor público".

Por tudo isto, é relevante que os dirigentes voltem suas atenções à função de comunicação/poder das suas empresas, caso desejem evitar conflitos com seus públicos, previnir lítígios no Judiciário e persistir nos mercados.

Lembrem-se, faz muito tempo, que novas "tábuas" chegaram à terra com o Código de defesa do consumidor, e frequentemente o governo coloca à disposição da sociedade normas que acrescentam pressões sobre as decisões organizacionais.


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