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Relações Públicas e Gestões Estratégicas

IVONE LOURDES OLIVEIRA

Doutora em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

Comunicação Estratégica no contexto contemporâneo:
construção de um modelo

Diante das transformações econômicas, políticas e sociais da contemporaneidade não é mais possível caracterizar a comunicação organizacional como um processo bipolarizado, centrado na emissão e na recepção, fundamentado no modelo clássico/informacional. É necessário considerar os espaços de construção social e entender a comunicação como um processo social e humano. Nessa perspectiva, a comunicação nas organizações passa a ser considerada um fenômeno complexo e de dimensão estratégica que não mais se sustenta por concepções instrumentais, que visem meramente informar e divulgar.

Essa dimensão alcançada pelo campo tem também como fator propulsor a constatação pelas organizações da necessidade imperativa de se relacionarem de forma intencional e estruturada com a sociedade. Chamadas a prestar contas sobre sua atuação, cada vez mais se defrontam com a demanda de uma postura aberta perante os atores sociais e com a prioridade de estabelecer com eles canais interlocutorios. Nesse contexto de interlocução pressupõe-se circularidade de discursos, ou seja, um ator interfere no discurso do outro na busca de consenso e entendimento. Tudo isso redimensiona o paradigma e as práticas da comunicação organizacional, em direção a um novo modelo, centrado na interação dialógica, na qual as partes envolvidas tornam-se sujeitos de uma dinâmica argumentativa, fundamentada na exposição dos interesses divergentes e na possibilidade de negociação.

Com o modelo denominado “Interação comunicacional dialógica” (conforme apresentação gráfica), pretende-se ir além da bipolaridade de um modelo meramente transmissional e redimensioná-lo para que possa considerar a diversidade do contexto contemporâneo: a abundância dos fluxos informacionais da e na organização, que se intensificam com a sociedade da informação , com a sociedade do conhecimento, a globalização e a tecnologia.


Modelo de Interação Comunicacional Dialógica

Outra relevância dessa concepção é tornar os processos comunicacionais nas organizações mais democráticos, considerando o seu constante relacionamento com os grupos que afetam ou são afetados por suas ações e políticas.

Nesse modelo o emissor – considerado como a organização – e o receptor – considerado como os grupos de relacionamento – são compreendidos como interlocutores do processo comunicacional, uma vez que deixam de ter o lugar definido da fala e da recepção e se constituem sujeitos de uma interação na qual as posições, antes fixas, adquirem circularidade e dialogicidade.

Além disso, o modelo tem como funtamentação teórica, no campo da comunicação, o paradigma relacional, no qual a comunicação é compreendida como um processo plural e multifacetado, visando a interação entre pessoas/grupos e que “circunscreve a relação - mediada discursivamente - de sujeitos interlucutores” (França, 2004).

Através desse caminho, ou seja, pensando a comunicação num contexto relacional, buscou-se, para a construção do modelo, autores que estudam a interlocução e a recepção como Queré (1991) e Fausto Neto (1998). A teoria da ação comunicativa do filósofo alemão Habermas (1989) – que discute o “agir comunicativo” na esfera pública – e o modelo de comunicação simétrica de mão dupla, do americano Grunig (1992) também foram referências teóricas importantes em nossa discussão. Elas caracterizam a dimensão política do modelo, na busca de uma comunicação estratégica.

Referências bibliográficas:

BAUMAN, Zigmunt. Globalização: as conseqüências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
BRAGA, José Luiz. Interação & Recepção. In: FAUSTO NETO, Antônio [et al.], organizadores. Interação e sentidos no ciberespaço na sociedade. Porto Alegre: EDPUCRS, 2001. 234 p. (Coleção Comunicação), 11. Compós; v.2.
CARDOSO, Cláudio (Org.). Comunicação organizacional hoje: novas tecnologias, novas perspectivas. Lauro de Freitas: UniBahia Editora, 2002.
FAUSTO NETO, Antônio. O indivíduo apesar dos outros: modos de descrever, modos de construir, o mundo da recepção. In: SEMINÁRIO SOBRE ESTUDOS DE AVALIAÇÃO DAS AÇÕES DO IEC, Brasília, 1998. Conferência apresentada. Brasília: Ministério da Saúde, 1998.
_________
. Notas para discussão sobre metodologias de recepção. Cadernos de Comunicação FACOS/ UFSM, Ano 2, n.2, dez. 1997.
FRANÇA, Vera Veiga. O Objeto da Comunicação/A Comunicação como Objeto. In HOHLFELDT, Antônio; MARTINO, Luiz C.; FRANÇA, Vera Veiga.(Orgs.) Teorias da comunicação - In Conceitos, escolas e tendências. Petrópolis (RJ) Vozes, 2001, p.39-60.
FREITAG, Bárbara. A teoria crítica: ontem e hoje. São Paulo: Brasiliense, 1986
GRUNIG, James (Org.). Excelence in public relations and communication management. New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates, 1992
HABERMAS, Jürgen. Consciência moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.
_________. Teoría de la acción comunicativa: complementos y estudios previos. 3.ed. Madrid: Cátedra, 1997.
MIÉGE, Bernard. O pensamento comunicacional. Petrópolis: Vozes, 2000.
PEREIRA, Carlos Alberto Messeder; HERSCHMANN, Micael. Comunicação e novas estratégias organizacionais na era da informação e do conhecimento. Comunicação & Sociedade, São Bernardo do Campo, 2. sem. 2002.
QUERÉ, Louis. D’un modele epistemologique da la communication a un modele praxeologique. Réseuax, Paris, n.46-47, 1991.


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