Página inicial do site Colunas & Colunistas
 
 

Comunicação Públicas e Comunicação Política

HELOIZA MATOS

Professora Doutora Livre-Docente do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Autora do livro“Mídia, Eleições e Democracia” dentre outros.

O boato como mídia no gerenciamento de crises

Apesar do potencial contemporâneo das mídias, o público continua a buscar – e receber – informações através de meios informais: o boca-a-boca, a conversa informal, o ouvir-dizer, o boato em si.

A emergência de novas mídias em tempo real, ao invés de suprimir os boatos e qualificar as informações ditas verdadeiras, contribuiu para tornar esse fenômeno ainda mais especializado.

É um fenômeno que carece de estudos atuais sobre a sua natureza, face à dificuldade de identificação de suas fontes, de seu desenvolvimento no tempo e, por muitas vezes, até de registros escritos – já que o boato é banido do relicário das informações com credibilidade de verdade, e é condenado a permanecer vivo apenas na lembrança dos que o viveram.

O que sobra é o registro do fato consumado e, no caso do boato, os rastros deixados nas pessoas, empresas ou instituições afetadas pela sua aparição. Assim, o objeto em si não tem sido passível de observação.

Autores americanos (1) voltaram-se para o estudo do boato pela primeira vez durante a II Guerra, e suas conclusões um tanto ideológicas e moralistas costumam ressurgir de tempos e tempos na análise deste fenômeno.

Primeiramente o boato é associado à mentira – o que é uma completa inverdade, e qualquer pessoa com boa memória pode comprovar.

Em seguida é associado à falta de informações –quase uma ode à importância da imprensa livre, que também não chega a ser exato.

Enfim, e é preciso lembrar que escreveram em tempos de guerra, onde o boato ocupou uma posição de mídia crucial, eles concluem que é um fenômeno que visa a dissolução da ordem, do poder estabelecido, dos governantes, da credibilidade da mídia e dos governos.

Ou seja, o boato é uma espécie de apologia niilista, que procura negar e ser contra as esferas sociais, políticas, religiosas. Ele é, antes de tudo, um fenômeno “anti” – anti-social, anti-político, anti-civilizado.

Outras opiniões, no linguajar de Jean-Noël Kapferer, que dedicou uma obra (2) ao tema em 1993, “psiquiatrizam” o boato, associando-o a um problema mental coletivo, a um “câncer do imaginário” social.

O boato é mais antigo que a sociedade urbana contemporânea, nasce no seio de qualquer coletividade e, certamente, se encontra repercussão e consegue propagar-se, atende a alguma necessidade social do momento.

Há diferenciações entre tipos de boatos, o que induz à possibilidade de uma tipologia. Por exemplo, ao fim do ciclo de produção e circulação da informação, o boato não precisa ser necessariamente uma mentira.

Mas também há diferentes papéis sociais relacionados ao boato: criadores, fomentadores, divulgadores, resistentes, apóstolos, e outros; ou seja, gente que é neutra em relação ao boato, e gente que não sendo neutra trabalha contra ou a favor de sua permanência e fortalecimento.

Existe toda uma gama de atores sociais que, agora, têm o recurso do e-mail para propagar suas boas novas mundo afora.

Identificando o boato

A primeira característica do boato é sua inverificabilidade. Isto decorre dele ser uma informação que quase sempre invoca o testemunho pessoal e direto: é um amigo, um parente, porteiro, ou motorista de táxi que transmite o boato – que, ao envolver o testemunho espontâneo e desinteressado de alguém de confiança, torna praticamente impossível a sugestão da dúvida.

Não que nunca caiba alguma dúvida quanto à qualidade da informação veiculada, mas antes que a incredulidade implica necessariamente uma “saia justa” política: quem questiona a verdade do boato que recebe, põe em discussão também a ingenuidade e boa fé de quem o repassa.

No caso, o silêncio de quem recebe a informacão-boato pode ser conseqüência da compaixão pela ignorância alheia, ou da dificuldade de arcar com o ônus da prova – já que toda verificação de um fato demanda tempo e recursos. Por outro lado, o contador está arriscando sua auto-estima como consumidor de notícias e seu prestígio como fonte de informações.

Para quem recebe o boato, trata-se não apenas de duvidar de uma informação que pode ser verdadeira, mas igualmente de se responsabilizar pelo acerto da acusação devidamente comprovada.

Para quem repassa o boato, o preço de fazer circular a informação é menor do que o valor das suscetibilidades que podem ser feridas pelo desvirtuamento do jogo durante a conversa. Para contornar esses riscos, quem repassa o boato opta por não investir demasiadamente na crença ou defesa do conteúdo da informação que veicula: assume a postura de “vende-se-como-comprado”.

Esse equilíbrio de poder entre a força da informação, sua existência e importância real e a legitimidade dos interlocutores resulta na dificuldade de distinguir o boato de outras informações transmitidas nas conversas do cotidiano ou pela mídia.

As duas fontes do saber na sociedade contemporânea são as mídias e a informação interpessoal. Enquanto originário da voz do grupo, o boato nele circula; podendo ser, no entanto, captado pela mídia. Se a mídia acolhe o boato, pode tratá-lo como tal ou mudar-lhe o status. Neste caso, a mídia apura as informações, checa fontes, esclarece os dados ambíguos e acaba por enobrecer o boato – mediatizando-o.

Mas, se a mídia acolhe e modifica o boato, ela não o anula. Afinal, os boatos não incomodam porque são falsos. Os boatos incomodam porque são informações “paralelas” à versão oficial, sejam elas provenientes do jornalista como intérprete do fato ou da autoridade credenciada a falar por e para todos. O boato pode ser, então, tomado como um mercado negro de informação.

Do ponto de vista do gerenciamento de crise, a principal característica do boato é seu poder de subverter a ordem (anterior à crise) e de dificultar o retorno da estabilidade perdida (quiçá por culpa do boato). Ou seja, o boato pode não estar na origem da crise, mas certamente atua na contracorrente dos esforços para minimizar ou eliminar seus efeitos. Conhecer e estudar melhor o fenômeno é, então, pré-requisito para enfrentar crises, já que toda crise passa em algum momento pelo (des)controle dos fluxos de informação –e certamente pelo boato como recurso de (contra)propaganda. Numa crise, boato não é só veneno, pode ser contra-veneno também.


(1) Allport, G.W., Postman, L.; Knapp, R.ª.

(2) “Boatos – o mais antigo mídia do mundo”, Forense Universitária, 1997.


Outros artigos dessa autora:

Ainda não existem outros artigos cadastrados deste autor.

 

Carolina Frazon Terra

Cleuza Gertrudes Gimenes Cesca

Rudimar Baldissera

Claudia Peixoto de Moura

Elísio Lopes Junior

Fábio França

Maria Aparecida Ferrari

João Alberto Ianhêz

Ivone Lourdes Oliveira

Márcio Matos

Manoel Marcondes Neto

Maria José da Costa Oliveira

Eugênia Rigitano

Roberto Fonseca Vieira

Sidinéia Gomes Freitas

Roberto Porto Simões

Henrique Wendhausen

Wilson da Costa Bueno

 
Portal RP-Bahia RP em Revista Boletim Orgulho de Ser RP RP TV - A primeira TV com conteúdo voltado às Relações Públicas do mundo! A rádio on-line do Portal RP-Bahia O jornal on-line atualizado minuto a minuto Central de relacionamentos Conheça todos os sites do Portal RP-Bahia Seja um colaborador voluntário do Portal RP-Bahia